As administrações do complexo ferroviário de São João del-Rei e Tiradentes, desde a época da "falecida" Rede Ferroviária Federal S.A., dão uma ênfase considerável ao mito de ser a pequena ferrovia em bitola de 762mm[1] (2 pés e 6 polegadas no sistema imperial) a única no mundo com tal característica.
Isso é justificável pelo fato de ser comum que as pessoas ou instituições tenham sempre o desejo de exclusividade, unicidade, efeméride, como se isso tornasse a coisa muito mais importante do que qualquer outra coisa.
Quando da criação da concessão de uma estrada de ferro que, partindo de um ponto da E. F. Dom Pedro II, fosse ter um ponto navegável do Rio Grande, na barra do Ribeirão Vermelho, em 1872, o contrato assinado entre a presidência da Província de Minas Gerais e os concessionários José de Resende Teixeira Guimarães e Luiz Augusto de Oliveira, ficava especificado que a ferrovia resultante deveria ser construída em bitola estreita. Entende-se por bitola estreita a via férrea com distância entre os trilhos abaixo da bitola padrão ou standard (1.435mm ou 4'8.5").
O engenheiro chefe da Oeste, Joaquim M. R. Lisboa, com a aprovação da diretoria, encabeçada pelo bacharel Aureliano Mourão, optou pela bitola de 0,76m considerando as possibilidades de economia de custo de construção e o caráter de ferrovia de baixo tráfego.
Ora, Lisboa não tirou a medida de sua cabeça, na verdade se inspirou em experiências já bem sucedidas na Inglaterra e na Cordilheira dos Andes, no Peru. O sistema de Fairly foi a principal inspiração para a opção pela "bitolinha". Portanto, quando construída a linha em bitola de 0,76m, a estrada aproveitava a experiência de outras estradas de ferro.
No mundo
Não é preciso ir muito longe para encontrar ferrovias com esta mesma característica. Uma viagem à Patagônia, na Argentina, nos permitirá presenciar uma ferrovia com tal bitola. Outro exemplo oportuno é a Ilha de Fidel Castro, onde nos canaviais correm ainda locomotivas "irmãs" de nossas Baldwin, inclusive idênticas à "nossa" 68.
Em várias localidades do mundo, em todos os continentes, existem pequenas ferrovias nesta bitola.
Alguns países por nós encontrados como exemplos, além dos já citados, são: China, Inglaterra, EUA, Áustria, Bulgária, Belarus, Estônia, Finlândia, Grécia, Hungria, Letônia, Lituânia, Noruega, Polônia, Romênia, Rússia, Eslováquia, Haiti, Chile, Uruguai, Índia, Japão, Taiwan e Austrália .
http://www.youtube.com/watch?v=HKcvSnNiXFQ
Neste Vídeo, a ferrovia chinesa em mesma bitola que a do "trenzinho" de São João del-Rei a Tiradentes.
http://www.youtube.com/watch?v=LXAFtao73aM
Aqui, mais um exemplo, desta vez na Austrália
http://www.youtube.com/watch?v=j_Gj6OhY9yY
Em Cuba as pequenas Baldwin, como as do Brasil, puxam pequenos carregamentos de cana-de-açucar.
Enfim, não nos preocupemos em ser "os primeiros", ou "os mais", ou "os únicos". Não ser a única, nem a mais e nem a primeira não tira o encanto da belíssima ferrovia que, mesmo sem intenção, preservamos quase que sem mudanças desde a primeira metade do século XX.
[1]Essa bitola varia milimetricamente entre 750 e 762mm, considerando que seus trens são intercambiáveis, devem ser entendidas como a mesma bitola.
1 comentários:
Muito bom e exclarecedor o texto...
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